Jogos cooperativos assimétricos: quando comunicar faz parte do jogo

Ilustração de dois jogadores a trocar pistas

« O que é que estás a ver? » Num jogo cooperativo assimétrico, esta pergunta não interrompe a partida: é uma forma de jogar. Cada pessoa tem acesso a informação, ferramentas ou ações que a outra não tem. Para avançarem, precisam de explicar o que descobrem e interpretar o que lhes é dito. Comunicar deixa de ser apenas uma maneira de combinar estratégias; passa a ser parte do desafio.

O que torna a cooperação assimétrica?

Ter personagens com aspeto diferente não significa, por si só, que existam papéis assimétricos. Se ambos veem as mesmas pistas e conseguem fazer as mesmas coisas, a diferença pode ser apenas estética. A assimetria surge quando uma pessoa sabe algo que a outra desconhece, ou quando cada uma dispõe de uma capacidade necessária para resolver o mesmo problema.

É essa distribuição que transforma uma conversa numa mecânica. Quem observa tem de escolher os detalhes relevantes; quem escuta tem de fazer perguntas, confirmar interpretações e agir com base numa descrição incompleta. Às vezes, o obstáculo não é descobrir a solução, mas conseguir transmiti-la sem que uma cor, uma posição ou uma ordem se perca pelo caminho.

Uma bomba, um manual: Keep Talking and Nobody Explodes

Em Keep Talking and Nobody Explodes, uma pessoa vê uma bomba virtual e tenta desativá-la. As restantes consultam um manual, mas não veem a bomba. Quem está junto dela descreve módulos, símbolos e fios; quem tem o manual procura as instruções aplicáveis e comunica-as. O tempo limitado torna cada troca de informação importante.

Uma frase como « corta o fio vermelho » pode não chegar: a regra pode depender do número de fios ou da posição de cada um. Funciona melhor seguir uma sequência combinada — identificar o módulo, enumerar os elementos, descrevê-los sempre na mesma ordem e confirmar a instrução antes de carregar ou cortar. Falar depressa nem sempre é comunicar bem; neste caso, a precisão pode poupar tempo.

Separados, mas ligados: We Were Here

Em We Were Here, os dois jogadores estão separados e falam por walkie-talkie. Cada um encontra pistas que o outro não consegue ver. Para resolver os enigmas, é preciso relacionar o que aparece num local com as possibilidades de ação no outro. « Tenho três símbolos à minha frente » é um começo, mas a posição, a forma e a ordem podem ser decisivas.

Uma boa prática é separar factos de palpites. « Vejo uma figura por cima de um círculo » descreve uma observação; « deve ser o segundo botão » já é uma interpretação. Dizer qual das duas estamos a partilhar ajuda a evitar que uma hipótese se transforme, sem querer, numa instrução errada. O momento em que as duas perspetivas finalmente encaixam é uma parte essencial da recompensa.

Coordenação não é sempre assimetria

Overcooked! 2 mostra outra maneira de fazer da comunicação parte do jogo. Numa cozinha partilhada, os jogadores organizam ingredientes, preparam pratos, servem pedidos e adaptam-se às mudanças do espaço. Muitas vezes podem executar tarefas semelhantes; por isso, não há necessariamente papéis assimétricos. Ainda assim, distribuir responsabilidades por momentos — « eu corto, tu cozinhas » — torna a conversa indispensável à coordenação.

It Takes Two foi concebido para dois jogadores e aposta mais diretamente em capacidades complementares. Em diferentes partes da aventura, cada personagem recebe possibilidades distintas que têm de ser usadas em conjunto. Onde estiver disponível, o Friend’s Pass permite convidar alguém que não tenha o jogo completo, sujeito às condições da plataforma. Convém confirmar essas condições antes de planear uma sessão.

Como escolher uma experiência para os dois

Pensem primeiro no tipo de colaboração que vos diverte. Preferem descrever pistas sob pressão, explorar enigmas com calma em espaços separados ou coordenar movimentos num cenário comum? Confirmem também se vão jogar à distância ou lado a lado, quanto tempo querem dedicar a cada sessão e que destreza os controlos exigem. Um ritmo entusiasmante para uma pessoa pode ser cansativo para a outra.

A forma de comunicar merece a mesma atenção. Vejam que opções existem efetivamente no jogo e na plataforma: legendas, ajuste de volume, personalização dos controlos ou meios de comunicação alternativos. Se falar ou ouvir for difícil, procurem um jogo com tempo suficiente para trocar mensagens escritas, ou confirmem que uma ferramenta adequada funciona para ambos. As opções de acessibilidade variam; não vale a pena presumir que estão presentes em todos os títulos.

Conversar com respeito também se aprende

Antes de começar, combinem expressões simples como « espera », « repete » e « vou testar ». Descrevam o que veem antes de dar ordens e avisem quando mudam de tarefa. Quando algo corre mal, tentem perceber onde a informação se perdeu, em vez de atribuir culpas. Uma pausa para reformular pode ser mais útil do que várias instruções dadas ao mesmo tempo. Se o jogo o permitir, trocar de papel também ajuda a compreender as dificuldades de quem está do outro lado.

Nos jogos cooperativos assimétricos, ganhar não depende apenas de duas pessoas executarem bem as suas partes. Depende de construírem uma visão comum a partir de experiências diferentes. Por isso, uma pergunta paciente, uma descrição clara ou um « já percebi » podem ser tão satisfatórios como resolver o último enigma.

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